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O que a eleição do Brasil significa para a economia global? Algumas dicas importantes

Por Thomas Machado Monteiro

  • A volta do esquerdista Lula ao cargo mais alto do Brasil completa um pivô político regional iniciado no México em 2018
  • Lula disse que seu país, terceiro maior exportador de alimentos do mundo, “não está interessado no papel de eterno exportador de commodities”
  • No entanto, o Brasil tem assumido um papel crescente no fornecimento de alimentos ao mundo diante da guerra na Ucrânia – e tem se beneficiado amplamente disso

Na eleição mais apertada do Brasil de todos os tempos, o ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva voltou ao poder após 12 anos depois de garantir 50,9% dos votos válidos do país. Será seu terceiro mandato, não consecutivo. Jair Bolsonaro é o primeiro presidente democraticamente eleito do Brasil a não ganhar um segundo mandato e ainda não admitiu a derrota publicamente.

Em seu discurso de vitória no domingo à noite em um hotel na maior cidade do país, São Paulo, Lula, de 77 anos, falou sobre a reunificação de um país altamente dividido, dizendo que “há apenas um Brasil”, um feito que parece improvável, já que Lula enfrentará forte oposição no Congresso, Senado e Estados.

O pivô político do Brasil é o mais recente e significativo da América Latina nos últimos anos. Ele completa uma ampla mudança regional para o nacionalismo de esquerda que tomou conta da América Latina desde que Andrés Manuel López Obrador assumiu o cargo de presidente do México no final de 2018.

Embora ainda seja cedo para avaliar todas as implicações da eleição de Lula, aqui estão algumas conclusões imediatas relevantes para a economia global.

Produtos alimentícios

O Brasil é atualmente o terceiro maior produtor de alimentos do mundo. Recentemente, deslocou os EUA como o maior exportador mundial de carne bovina e continua sendo o maior exportador de café e soja.

Com uma oferta global de grãos apertada devido à guerra na Ucrânia, seca recorde na Europa e chuvas incomuns na Índia e na China, o país sul-americano emergiu como uma das principais soluções de curto prazo do mundo para o crescente problema de segurança alimentar.

No entanto, em seu discurso ontem à noite, Lula disse que o Brasil “não está interessado no papel de eterno exportador de commodities”. Por sua vez, prometeu priorizar os pequenos e médios produtores rurais, já que são eles que fornecem a maior parte do abastecimento interno de alimentos de seu país.

A declaração indica um pivô da política agrícola voltada para a exportação de Bolsonaro, que levou a dois anos de exportações recordes de commodities para o país devido ao aumento dos preços globais.

Uma mudança na política agrícola brasileira provavelmente prejudicaria a oferta mundial de alimentos, possivelmente resultando em preços mais altos de mercado e ao consumidor.

Ao contrário dos EUA, Europa e China – que já atingiram o pico das terras agrícolas – o Brasil vem crescendo exponencialmente sua área cultivável durante o governo de Bolsonaro. Isso, por sua vez, gerou preocupações ambientais, principalmente em relação ao desmatamento da região Amazônia.

Como o presidente e CEO da AgResource, com sede em Chicago, Dan Basse, disse em uma entrevista: “Estimamos que o mundo precisa trazer outros 25 milhões de acres de terras agrícolas nos próximos cinco anos para equilibrar as coisas. A maior parte dessa terra terá vir da América do Sul.”

Petrobras (BVMF:PETR4)

Embora Lula não tenha mencionado nada específico sobre gigantes corporativos estatais, como Petróleo Brasileiro Petrobras (NYSE:PBR) ou Eletrobras (BVMF:LIPR3), os negócios de petróleo e eletricidade do país, sua trajetória política indica que o governo provavelmente buscará um maior poder de decisão nessas empresas.

Durante seu governo anterior, o presidente controlou a inflação do país por meio de políticas de teto de preços em ambas as empresas, sobrecarregando seus balanços e levando a ganhos medíocres de ações no longo prazo.

Além disso, um grande escândalo de corrupção que envolveu os governos de Lula e de sua sucessora, Dilma Rousseff, ajudou a levar a Petrobras a novos patamares.

Esse panorama começou a mudar durante a presidência de Michel Temer, em 2016, quando o ex-presidente afirmou que a empresa venderia sua imensa produção de petróleo bruto a preços equivalentes ao benchmark norte-americano WTI.

A liberalização da empresa se aprofundou com Bolsonaro, marcada por uma diminuição significativa na propriedade governamental de ações ordinárias e a venda de muitas licenças de exploração de petróleo para empresas privadas estrangeiras e brasileiras.

Nesse período, a empresa melhorou suas margens operacionais e aumentou as reservas de caixa, o que gerou um ganho de aproximadamente 130% para as ações. A Petrobras também aumentou seu rendimento de dividendos para quase 35%.

No entanto, no lado negativo, os eleitores brasileiros suportaram o peso dos aumentos exponenciais nos preços do gás em 2021, à medida que a moeda do país se desvalorizou em relação aos dólar e a commodity subiu no comércio global.

Além disso, durante o mandato de Bolsonaro, o governo brasileiro manteve o controle absoluto de votos sobre a empresa, muitas vezes interferindo na presidência e no conselho de administração da empresa.

Moeda e mercado de ações

O real brasileiro foi uma das poucas moedas do mundo a ganhar terreno em relação ao dólar americano este ano, cerca de 5%. A principal razão é a suposição de que o banco central do país está mais à frente do Fed em seu ciclo de aperto monetário.

A base taxas de juros no país está em 13,75%, e a inflação, de fato, diminuiu nos três meses anteriores. O Desemprego também tem tendência de queda, e as estimativas do PIB foram revisadas para cima, um sinal de que a economia geral permanece resiliente diante da atual crise global.

O Brasil também é menos afetado pela invasão russa da Ucrânia devido à sua dependência energética de fontes renováveis, principalmente hidrelétricas. Gás natural compreende menos de 10% da matriz energética do país.

Esses fatores fizeram do mercado de ações brasileiro um dos principais desempenhos globais do ano, com o benchmark iBovespa subindo 10% no acumulado do ano. O benchmark também vem colhendo os frutos dos altos preços das commodities devido à sua forte exposição a empresas agrícolas e petrolíferas.

Em seu primeiro mandato, o presidente Lula apostou sua política econômica no fortalecimento do mercado interno do país, por meio da melhoria do consumo das classes média e baixa, por meio da oferta de crédito facilitado e da previdência social.

A aposta parece ter funcionado, pelo menos no curto prazo, já que o Brasil teve um crescimento médio do PIB de 4% A/A durante os primeiros oito anos de seu mandato – um período em que a economia do país disparou para a sétima maior economia do mundo, desafiando brevemente o Reino Unido pela sexta posição.

No entanto, a política também aumentou a dívida do país, provavelmente levando a uma década de desempenho inferior para a economia brasileira devido à queda do real e a um mercado de crédito em dificuldades.

Além disso, Lula herdou uma situação fiscal diferente em seu primeiro mandato, que deu ao ex-ministro da Economia, Guido Mantega, muito mais liberdades orçamentárias do que o país parece ter no momento.

A dívida atual do Brasil é alta devido à previdência social pandêmica, taxas básicas de juros de 13,75% e aumento dos gastos do governo Bolsonaro nos últimos meses para aumentar suas chances de eleição.

Especialistas afirmam que a combinação do programa de governo de Lula com a atual situação econômica do país representa um grande desafio para o futuro.

Resultado final

Não será fácil avaliar o grosso da política de Lula enquanto seu ministro da Economia permanecer desconhecido do público em geral. No entanto, como Felipe Izac, associado da Nexgen Capital, disse ao Investing.com Brasil, as condições macro continuam altamente favoráveis ​​para o país. “Hoje, o Brasil está muito bem posicionado economicamente, principalmente em comparação com as principais economias emergentes.”

Por outro lado, devemos observar que, em seu discurso de ontem à noite, o presidente retornado se mostrou menos favorável ao mercado do que em seu mandato anterior. No entanto, dado que o presidente enfrentará um Congresso e um Senado altamente hostis, a maior probabilidade é que qualquer política pouco ortodoxa não seja aprovada.

Por fim, quaisquer mudanças potenciais na cadeia produtiva de alimentos do Brasil podem impactar significativamente um mercado global já tenso. Será interessante observar como os mercados de commodities agrícolas reagirão a curto e médio prazo.

Aviso: O autor detém uma posição longa na Petrobras, embora tenha vendido a maior parte de sua participação após o primeiro turno das eleições deste ano.

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